quarta-feira, 27 de maio de 2009

comportamento


Auto-ajuda só consegue prendê-lo, adiá-lo, escondê-lo.

Sinta raiva
Se odeio uma pessoa, a psicanálise mostra que ela não é necessariamente má: o ódio é meu, o ódio sou eu, é meu problema.
Se há algo que incomoda na auto-ajuda é a insistência nas emoções boas e positivas, é a pregação de que as pessoas pratiquem o bem.
Recebo com frequência, por e-mail, correntes de alto-astral que incluem até textos falsificados, atribuídos ora a Jorge Luis Borges, ora a Garcia Márquez. A intenção da auto-ajuda pode ser boa, mas não confio no resultado. E isso porque faz parte de nós ter sentimentos negativos.
Talvez a contribuição mais importante que a psicanálise tenha dado ao mundo tenha sido essa. Não foi falar de sexo ou mostrar que a criança não é tão inocente quanto Rousseau pensava, nem descobrir ou inventar o Édipo. Foi, isso sim, autorizar as pessoas a sentirem emoções malvistas, a começar pela raiva, pela inveja, pelo ciúme. Justamente as emoções que a auto-ajuda procura impedir que eclodam!
Ora, todos sabemos que, quando é represada, a energia acaba estourando. Psiques implodem exatamente porque o mal, o mal dentro de nós, o sentimento negativo foi represado, reprimido até achar uma válvula de escape, geralmente péssima em termos sociais.
Lembremos, em nossa literatura, Augusto Matraga. Depois de humilhado e ofendido, esse homem mau se converte ao bem e quer entrar no céu, mesmo que seja a porrete. Segura todos os seus maus sentimentos, mas é claro que a natureza fala mais forte e... bem, para saber como termina a história, vale a pena ler “Sagarana”, de Guimarães Rosa.
Mas quer isso dizer que a psicanálise criou um vale-tudo, um “liberou-geral” dos maus sentimentos? Não, porque ela autoriza não a agir segundo os afetos hostis, mas apenas senti-los. Se nutro ciúmes por alguém, ela me faz reconhecer isso e até me mostra que não há mal em desejar o mal. Só que, reconhecendo a hostilidade dentro de mim, percebo que ela está em minha psique, não no mundo externo.
Se odeio uma pessoa, a psicanálise mostra que ela não é necessariamente má: o ódio é meu, o ódio sou eu, é meu o problema. Ela autoriza o sentimento, mas desautoriza qualquer racionalização em cima dele.
Passamos o tempo construindo discursos complicados para provar como os outros nos fizeram mal. Marotamente, a psicanálise aceita esses discursos só que para logo depois mostrar que são apenas discursos, que não dizem a verdade sobre as outras pessoas, só a dizem sobre mim. Por isso ela libera, ao permitir o ódio e cura ou, pelo menos, melhora a vida das pessoas ao desligar o ódio dos objetos externos, enganosos e remetê-lo ao sujeito, a mim que odeio, a mim que posso parar de odiar tanto. Por isso ela pode superar o ódio, enquanto a auto-ajuda só consegue prendê-lo, adiá-lo, escondê-lo.
E a questão é esta: queremos ficar em intenções não realizadas ou ir mais fundo? A psicanálise está longe de ter uma história de sucesso com seus pacientes. Sua terapêutica não me parece tão bem-sucedida. Mas sua mensagem social aceite que você não é um anjo continua muita libertadora. (Renato Janine Ribeiro)

Bom dia!

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