quarta-feira, 27 de maio de 2009

Martha Medeiros


Povoar a Solidão.

A sua é de que tamanho? Dificil encontrar alguem que tenha uma solidão pequena, ajustada do tipo baby look. Geralmente a solidão é larga, esgarçada, como uma camiseta que poderia vestir outros corpos além do nosso. E costuma ser com outros corpos que se tenta combate-la, mas combatê-la por quê?
Se nossa solidão pudesse ser visualizada, ela seria um vasto campo abandonado, um estádio de futebol numa segunda-feira de manhã. Dói, mas tem poesia. Talvez seja por ai que devamos reavaliá-la: no reconhecimento do que há de belo na sua amplitude.
A solidão não precisa ser aniquilada, ela sá precisa de um sentido. Eu não saberia dizer que outra coisa mais benéfica para isso do que livros. Uma biblioteca de mil volumes é um exército que não combate a solidão, mas a ela se alia.
A solidão costuma ser tratada, como algo deslocado da realidade, como um tumor que invade o orgão vital. Ah, se todos os tumores pudessem ser curados com amigos. Uma pessoa que não fez amigos não teve pela vida nenhum respeito. Nossa solidão é nossa casa e necessita abrir horários de visita, revelr-se uma solidão anfitriã, que gosta de ouvir as hist´rias das solidãoes dos outros, já que possuem seus descampados.
A solidão não precisa se valer apenas do monólogo. Pode aprender a dialogar, e deve exercitar isso também através da arte. Há sempre uma conversa silenciosa entre o ator no palco e o sujeito no escuro da platéia, entre o pintor em seu ateliê e o visitante do museu, entre o escritor e seu leitor desconhecido. Ah, os livros de novo. De todos os que preenchem a nossa solidão, são os livros mais anárquicos, os mais instigantes. Leia, e seu silêncio ganhará voz.
Às vezes tratamos nosso isolamento com certa afetação. Acendemos um cigarro na penumbra da sala, botamos um disco dilacerante e aguardamos pelas lágrimas. Já fizemos essa cena num final de domingo - tem dia mais solitário?
É comum que agente entre na fantasia de que nossa solidão daria um filme noir, mas sem esquecer que ela continuará amanhã e depois de amanhã, deixando de ser charmasa e nos acompanhando até o supermercado. Suporte-a com bom humor ou com mau humor, mas não a despreze.
Permita que sua solidão seja bem aproveitada, que ela não seja inútil. Não a cultive como uma doença, e sim como uma circunstância. Em vez de tentar expulsá-la, habite-a com espiritualidade, estática, memória, inspiração, percepções. Não será menos solidão, apenas uma solidão mais povoada.
Quem não sabe aproveitar sua solidão, tambem não saberá ficar sozinho em meio a uma multidão, escreveu Baudelaire. Ah, o livro outra vez.
(Martha Medeiros)

Boa noite!

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